Roteiro de viral para ONG gay

Fui convidado a escrever o roteiro de um viral para uma ONG contra a homofobia. Não foi aprovado.

Sinopse: Homofóbico, um personagem boçal e infame, é obrigado a dividir apartamento com um Gay nem um pouco caricato, o famoso “sujeito normal que gosta de piroca”. Homofóbico passa a dedicar seus dias a registrar os “afetados e insultados comportamentos de um gay”. Gravado com estética caseira.
-

ROTEIRO

CENA 1

Homofóbico: Opa, beleza? Cara, esse vídeo aqui é pra mostrar que muito se fala de “homofobia” (sempre fazendo as infames aspas com as mãos), mas recentemente tava precisando de dinheiro e acabei dividindo apartamento com um gay. Pô, eu sou muito cabeça aberta, dá pra ser o que bem entender, mas longe de mim, né? Faz o que quiser mas não na minha frente, é o mínimo que eu posso pedir. Eu vou mostrar pra vocês como, por mais que falem de “direito igual”, o gay é muito estranho mesmo.

De longe, o Homofóbico filma o Gay comendo. Diz, sussurrando pra câmera (e se filmando um pouco)

Homofóbico: Olha lá, o jeitinho que ele come. Aposto que é comidinha vegetariana aiaiaiuiui.

Caminha até o Gay.

Homofóbico: Que comida é essa aí?

Gay: Bife a milaneza. Tu quer um pouc…

Homofóbico (Interrompendo): É de soja essa carne, né? Carninha de soja.

Gay: Não não, carne normal mesmo.

Homofóbico titubeando, engasgando no argumento.

Homofóbico: Mas..mas se só tivesse carne de soja, na cidade inteira,…só carne de soja, mais nada…tu comeria?

Gay: Ué, acho que sim, né? (Gay abrindo uma cerveja na mão).

Corta pro Homofóbico de longe de novo, e o Gay lá no fundo jantando. Homofóbico olhando pra câmera, sussurrando:

Homofóbico (afinando a voz): “Ué acho que sim”. Nossa, é muito gay!

CENA 2

Tudo escuro. Homofóbico acende um abajur. Pega a câmera na mão, filma seu rosto com sono, filma um radio-relógio que mostra serem 00:12.

Homofóbico: Olha a hora! E ele tá lá na sala com um “amigo” dele (Homofóbico faz as aspas com as mãos, bem boçal, tipo publicitários fazem). Não quero nem imaginar a pederastia que tá acontecendo. Não quero nem ver, aqueles pintos de roçando. Não quero nem ver.

Homofóbico abre a porta, anda na ponta dos pés, dá um zoom de longe na sala, onde o gay e um amigo jogam videogame.

Homofóbico: A qualquer momento. Só esperar.

Uns seis segundos deles apenas jogando.

CORTE pra mostrar tempo passando.

Só se ouve respiração do homofóbico, eles continuam jogando videogame.

CORTE

Zoom no amigo.

Homofóbico: Daqui eu não consigo ter certeza, mas acho que ele é japonês. Essa daí me surpreendeu. Japonês…

CORTE

Homofóbico: A qualquer momento.

CORTE

Já dia. Homofóbico fala pra câmera enquanto puxa ferro no quarto, vendo vídeo do Thor Batista sem camisa dando dicas de malhação no YouTube.

Homofóbico: Ontem acabou a bateria, bem quando ia acontecer. Cês viram, né? Aqueles dois tavam se querendo. Embaixo do meu teto não (faz não com o dedo). Não, senhor. É cada um, viu?


CENA 3

Homofóbico de joelhos na sala do lado do rack, ao fundo a porta da casa.

Homofóbico: Vocês já repararam no jeitinho de mãezona dele, né? Agora vou mostrar as musiquinhas, só I Will Survive, hahaha.

Homofóbico puxa um cd Tropicalia, aponta pro cd, sorrindo com desdém pra câmera.
Puxa um cd dos Beatles. Homofóbico olha.

Homofóbico: Olha isso. Olha as roupinhas. Significa ou não significa?

Homofóbico pega um terceiro cd e a porta se abre. O Gay entra.

Gay: Opa, atrapalhei alguma coisa? Desculpa aí. (gay é sempre gente fina e cordial)

Homofóbico: Eu tava só mostrando uns cds teus pra galera. Teu refinadíssimo gosto musical (com tom de ironia).

Gay: Ah, não. Os meus cds eu levei pro quarto já. Ficaram só os teus aí no rack.

Gay entra para casa. Homofóbico fica meio catatônico, olha pro cd que está na mão. Mostra pra câmera.

Homofóbico: Iron Maiden. (Faz sinal do metal). Bruce Dickinson pilota helicóptero (fazendo hélice com o dedo).


CENA 4

Homofóbico: Hoje é sexta, (afina a voz) dia de balada. Vâmo ver se aquela borboleta, como ele diz mesmo, “se montou”?

Homofóbico caminha no corredor, escora a câmera em algum lugar e, enquadrado de corpo inteiro, bate na porta.

Gay (sem abrir): Oi?!

Homofóbico: Vai sair hoje?

Gay: Vou, tô só terminando de me arrumar.

Homofóbico (irônico infame): Aaaah se arrumando.

Homofóbico fica olhando pra câmera e simulando um homem se maquiando, pegando nos seios (nota: ?), passando batom.

Porta se abre e gay aparece com a mesma roupa que o homofóbico (que continua fazendo a mímica até perceber presença do gay). Quando vê toma um susto.
Celular do Homofóbico começa a tocar, “I Will Survive” versão Cake. Hétero tira do bolso, mostrando o celular pro gay.

Homofóbico: Não é gay, é versão do Cake.

FINAL

Homofóbico: Vocês viram o comportamento dess cara, né? Meu pai é delegado, eu sempre fui na igreja, sem condições continuar com isso na minha casa, essas putaria que eles faz aí foram a gota d’água. No maior respeito, cada um faz o que quer, já disse. Cada um cada um, mas longe de mim, né? Mandei ele embora. Meu limite de viadagem já tava por aqui ó (faz sinal com a mão acima da cabeça). Mas, final feliz, consegui um colega novo pra dividir o apartamento. Esse é macho! Macho que nem eu, daí não vai ter problema. Outra história né, não tem mais uiuiui, mimimimi, aiaiai, cutícula. Esse aí é macho e pensa que nem eu, ó.

Homofóbico vira o enquadramento da câmera um pouco, enquadrando também um velho (nota: que riquíssima metáfora para personificar o pensamento retrógrado do homofóbico, hã?).

Homofóbico: O senhor entende, né?

Velho: É inadmissível, mesmo. É bom ver que alguma juventude mantem a razão, sabe?

Homofóbico: Viu só? (Olhando pra câmera) Acho que encontrei meu colega de quarto perfeito.

Velho: Sou totalmente de acordo. Onde já se viu? Esses pretos se mudando pra cá, roubando nossos empregos.

Homofóbico (meio apavorado e caminhando em direção a câmera): Não, acho que o senhor não entend(desliga)

FIM.

A Vida de Rafinha Bastos

Feriadão, quatro dias de comida congelada e tempo livre. Daí li que o Rafinha Bastos ia ter um uma série autobiográfica e pensei: por que não escrever um piloto?

“A Vida de Rafinha Bastos”

INT. GALPÃO SOMBRIO (Som de gotas caindo, alarme de carro distante)

RAFINHA BASTOS amarrado em uma cadeira, de costas para  a tela. TRAFICANTE, com cicatriz no rosto, brinca com um estilete.

TRAFICANTE (com a língua presa)
Então foi pra isso o dinheiro?

TRAFICANTE aponta para notebook com vídeo de Rafinha Bastos no YouTube.

TRAFICANTE (continuando)
Você perde o emprego, então pega dinheiro emprestado com o tráfico para fazer vídeo pra internet? E ainda NÃO paga essa dívida. Você só pode ser a pessoa mais estúpida que eu já vi na vida.

RAFINHA BASTOS (cabisbaixo)
Eu achei que ia ser bom, ia ser bom pra mostrar que eu mantive minha credibilidade artística.

TRAFICANTE
Credibilidade artística?! Tu faz piada, bróder. Não são ruins as piadas, eu tenho um tio, ele Tá em um estágio bem avançado de Alzheimer e ele faz umas piadas bem boas tipo as suas. Vocês iam se dar bem. É uma figura. As vezes ele vê foto de mulher dirigindo no Facebook e comenta: ‘Que perigo”. É um brincalhão, sua cara. Eu particularmente concordo com algumas coisas: mulher é tudo puta, todos viados devem morrer…

RAFINHA BASTOS (interrompendo)
Eu nunca falei isso.

TRAFICANTE
Lógico que não (pisca com canto do olho). Assim como você também não pegou 5 mil emprestado

do tráfico pra fazer vídeo de piadinha na Internet.

RAFINHA (em tom irônico)
Melhor que fazer aqueles comerciais que o YouTube obriga a ver que nem o resto do CQC.

TRAFICANTE
Chegou de piada, piadista.

TRAFICANTE crava estilete em uma tábua, tira uma arma das costas e dá uma coronhada no rosto de RAFINHA. A imagem

congela no rosto sendo agredido e, sobre o frame congelado, aparece o título:

“A VIDA DE RAFINHA BASTOS”

EXT – PARQUE

RAFINHA BASTOS (fazendo carinho no próprio rosto)
Eu não sei mesmo. Eu tô completamente perdido. As pessoas me odeiam, minha vida tá sem um propósito. Eu me sinto constantemente como o tio que bebe demais e estraga a noite de natal.

VOZ FEMININA (em off, ainda enquadrando apenas Rafinha)
Fodam-se esses putos. O que falta pra esses boqueteiros é uma boa piroca atolada no cu.

Enquadramento abre e vemos que é Sandy Leah que está do lado de Rafinha Bastos. Ambos estão com roupas de ginástica se passando uma bolinha de tênis enquanto conversam.

SANDY
Eu, mais do que ninguém, sei que chove bicha louca nessa indústria.

RAFINHA ri, passa a bola para Sandy, que joga de volta e Rafinha não consegue pegar. A bola rola até uns palhaços de rua (um deles fuma um cigarro) que vendem algodão doce. Rafinha para.

SANDY
Não vai pegar a bola?

RAFINHA
Tu não pode pegar pra mim?

SANDY
Cê tem medo de palhaço, bicho?

RAFINHA
Não de todos palhaços. Mas desses sim. Desses que são mal pagos, tão com a cara pintada embaixo do sol do meio dia e só fazem isso porque não queriam trabalhar como faxineiros. O sonho deles não é sair e trazer alegria pras pessoas,  eles não terminaram o ensino médio e pensaram “nossa, mãe, quero fazer curso de clown, quero ir pra europa ser clown”. Então sim, eu tenho medo de palhaço.

SANDY (rindo e indo pegar a bola)
Boiola.

Sandy e Rafinha chegam em uma esquina, onde mais umas pessoas esperam para o sinal abrir. Rafinha não percebe que o sinal está fechado e continua andando. Um adolescente no celular vê, de canto de olho, aquela silhueta passando e o acompanha, acreditando que o sinal tenha aberto. Rafinha percebe que vem um carro e dá um passo para trás. O adolescente, imerso no seu celular, continua andando e é atropelado brutalmente.

Sangue esguicha no rosto de Sandy.

RAFINHA encara catatônico a situação.

MULHER
Monstro! Assassino!

RAFINHA
Eu não vi! Eu não imaginei que ele fosse andar junto, eu nem percebi que eu tinha ido…

SANDY (interrompendo e limpando o sangue do rosto no casaco de Rafinha)
Ninguém viu, não aconteceu. Bóra.

Sandy para um taxi e puxa Rafinha para dentro do carro.

INT. – TÁXI

SANDY
Mas então, agora que tu fica o dia inteiro a deus dará, tem visto muita TV?

RAFINHA (mexendo no celular, meio distante)
Não muito. Eu baixo mais filmes, né. Tem que ser meio otário pra ver TV hoje em dia, assinar TV a cabo. Tem tudo de graça na internet.

SANDY
Às vezes eu vejo o número de vendas do meu cd, ganho disco de platina, e penso: “da onde vem essa gente?! 1991? tem de graça na internet, seus imbecis”. Essas pessoas já tomam remédio antibiótico ou penincilina é outra tecnologia que eles preferem não aderir?

RAFINHA ri, mas ainda mais distante.

SANDY
O que houve, bicho? Tá mal pelo acidente de antes? Isso acontece mesmo, cara. Uma vez tava eu, André Marques e uns 4 quilos de m…

RAFINHA (interrompendo)
Não, é que, é que me chamaram de gordo no Twitter. (aperta uma teta) Eu tô gordo?

SANDY
Bicho, tu tem mais de quatro milhões de seguidores, isso é mais que a população do Brasil e

RAFINHA (interrompendo)
Eu tenho quase certeza que não.

SANDY
O fato é que uma pessoa diz isso e tu já te afeta e…tá, tu tá gordo. Gordíssimo. Que porra tu tá comendo? Pastel no café da manhã? Milkshake de bacon?

RAFINHA (descendo do carro)
Eu tô com minha roupitcha, meu iPod. Me deixa aqui que eu vou correndo pra casa, ficar em forma, magérrimo tipo o Cazuza no fim de carreira.

SANDY (pela janela com o taxi partindo)

É por essas piadas que tu não tem emprego.

EXT. RUA

Montagem em câmera lenta. Rafinha coloca arruma tênis, tira a jaqueta e a joga no chão da rua, coloca os fones e aperta play. Começa tocar “Vou Deixar” do Skank. Rafinha corre, sua, sorri, como se o esporte exorcizasse todos demônios dos últimos meses. Rafinha começa a ficar ofegante. Cada vez mais.

Nos fones, Rafinha ouve:

Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
É melhor desistir
Seu leitãozinho infeliz

Rafinha faz cara de espanto com o que ouve, cada vez mais ofegante, massageando o peito com a mão. A visão de Rafinha começar a ficar turva e girar. Enquanto isso, ele ainda ouve, no ritmo da original:

Seu gordo simplório
Quer almoçar churros
Doce de leite e
Lasanha de quatro queijos

Rafinha, escorando num muro, vê Samuel Rosa com uma guitarra se aproximando, cantando agora pessoalmente:

SAMUEL ROSA
Tuas veias tão entupindo
Tu não vai chegar nem nos 50 anos
Esse teu coração vai explodir

Rafinha começa a fechar os olhos. Tudo fica escuro.

Em visão subjetiva, Rafinha Bastos abre os olhos. Percebe que um mendigo criança rouba um de seus tênis e sai correndo. Olha para frente e vê um paparazzi que bate uma foto. Um flash é disparado.

INT. ESCRITÓRIO DO RAFINHA BASTOS

A imagem que recebeu o flash (Rafinha deitado no chão, sujo e sem seus sapatos) agora é uma foto impressa em um jornal que Rafinha lê, abaixo da manchete “Comediante espírito de porco debocha de mendigos no centro de São Paulo”. Rafinha larga o jornal quando seu estagiário, um menino oriental de aparência infantil, entra no escritório.
ESTAGIÁRIO
O seu agente está o esperando para o almoço.

RAFINHA
Ok, já tô indo, Matsumoto…Takashi? Kurosawa? Qual o seu nome mesmo?

ESTAGIÁRIO
Daniel, senhor.

RAFINHO (passando a mão na cabeça do estagiário, bagunçando o cabelo)
Isso, Daniel-San. Avisa que eu já tô indo.

INT. RESTAURANTE

Rafinha senta em uma mesa de uma padaria ao lado de um homem de chinelo, bermuda, barba por fazer e cabelo sujo e desgrenhado.

RAFINHA
Conseguiu meu ingresso?

AGENTE
Que ingresso?

RAFINHA
Porra, o da Madonna. Eu pedi faz meses, tu falou que conseguia.

AGENTE
Putz, esqueci. Não tem como tu comprar?

RAFINHA
800 reais, cara. É pra minha mulher, ainda. As pessoas falam do casamento legalizado, mas maior benefício em ser heterossexual é não precisar pagar 800 reais pra ver a Madonna.

AGENTE
Uououououou. Alto lá, campeão. (curva para frente e sussurra) Isso é aí homofobia. Pega leve. Esse comportamento que te colocou nesse lugar em primeiro lugar. Tu sabe que se fosse um ano atrás, tu conseguia esses ingressos assim (estrala os dedos). Como era? O twitter mais bonito da cidade, Revista Times? Cada uma, haha.

RAFINHA (cansado)
Tu podia te esforçar um pouco mais, né? Tentar conseguir algo pra mim. Ou pelo menos te vestir que nem um adulto. Por Deus, tu é meu agente.

AGENTE
Vai querer que eu bote um terno agora? Tá com saudade do CQC tá? Hahahahha!

RAFINHA (mais cansado ainda)

Cara, isso não tá funcionando. Não sei. Essa nossa dinâmica. Tô pensando em procurar outro agente.

AGENTE fica sério. Perde qualquer feição brincalhona. Abre a boca para argumentar quando é interrompido por um adolescente na rua, de uniforme escolar:

ESTUDANTE
RAFINHA BASTOS, VAI TOMAR NO CU.

Agente aproveita a oportunidade.

AGENTE
Quer que eu resolva isso? Eu vou resolver isso. Cliente meu não aceita sapo de qualquer um. Espera aí.

RAFINHA
Não precisa, não foi nada. Não precisa!

Agente sai correndo atrás do estudante.

Montagem de perseguição pelas ruas de São Paulo.

INT. METRÔ

Estudante entra no metrô. Agente segue.

EXT. RUA

Rafinha Bastos caminha ouvindo “Love of My Live” do Queen, ao vivo no Rock in Rio. Ele canta junto, bem baixinho. Apenas a plateia canta no ao vivo e Rafinha apenas escuta. Rafinha fala “It’s beautiful” junto com Freddie Mercury.

INT. METRÔ

Estudante desliza por baixo da roleta. Agente coloca os chinelos na mão e pula por cima da roleta, se apoiando nas beiradas.
EXT. RUA

Rafinha Bastos dá uma moeda para um mendigo e senta em um degrau de uma igreja. Coça a cabeça como quem procura lógica na vida.

INT. METRÔ

Agente pega o Estudante pelo casaco e o segura em um mata-leão. Agente tira o celular do bolso, tentando dominar o Estudante que se mexe bruscamente para tentar escapar do mata-leão e mexer no equipamento ao mesmo tempo.

EXT. RUA

Celular de Rafinha Bastos toca. Ele tira do bolso. É uma mensagem do agente. Ele abre e é uma foto do Agente sorrindo segurando o Estudante em um mata-leão e a frase “Desculpa =/”.

Rafinha sorri olhando para a mensagem.

ASSALTANTE (apontando uma faca)
Passa o celular, tio.

RAFINHA
O que?

ASSALTANTE
Cê é surdo? Quer que eu fure sua orelha pra cê ouvir? O celular, caraio.

Rafinha entrega o celular. Assaltante pega e olha confuso para Rafinha.

ASSALTANTE
Porra, cê não é da TV?

RAFINHA (com um pouco de esperança de recuperar o celular)
Isso! Eu..

ASSALTANTE (interormpendo)
Lógico! O gordo do VideoShow! André Marques, né? Valeu aí, Mocotó! (balançando o celular no ar).

Rafinha Bastos suspira.

FIM.

Desculpa, cara

Como tentei escrever um release de “Danton”  e acabei indo ao confessionário.

“Danton” é uma ficção, híbrido de conto e história em quadrinhos, escrito por Vinícius Perez e ilustrado por Niege Borges. O protagonista presente nas 16 páginas da publicação online é Danton Mello, o irmão de Selton Mello (me dói te designar assim, bicho, my bad). “Danton” é, basicamente, mais um dia ruim de uma temporada ruim na vida do Danton e sua jornada pelo mundo do entretenimento. Uma resenha (a única até agora) resumiu a narrativa como “uma homenagem nada lisonjeira”, enquanto amigos e família dos responsáveis pelo projeto usaram termos como “espírito de porco” e “mal intencionado” em suas críticas.

É uma pena, já que a intenção é a oposta: Danton não é o saco de pancada de uma piadinha sádica. Pelo menos não só isso. Ele é o representante do irmão do meio, o fantasma de uma humilhação na quinta-série, o paladino daquele sentimento constante de inadequação que fica sempre por perto tentando te sabotar. É até bom que isso se perca e que alguns entendam como um bullying (palavra do público essa, eu não ousaria fazer isso com vocês) com o ator: só quer dizer que as passagens quase autobiográficas do autor não são percebidas. O lado ruim são os medos consequentes disso: magoar o Danton Mello de verdade e ser processado pelo Danton Mello de verdade. Não exatamente nessa ordem: ser processado tira mais o sono (o autor se preocupa mais com a sua situação monetária do que com os sentimentos de terceiros, mas ainda assim se preocupa com os sentimentos de terceiros).

Deus, eu tô escrevendo uma carta de desculpas pro Danton (e como é vergonhoso escrever sobre si em terceira pessoa).

Sobre a obra mesmo: muito gosto de “Adaptação” do Kaufman, “Louie” do Louie e toda essa metapunheta autodepreciativa (e imagino que tenha ficado bem claro o quanto eu chupei disso tudo). O multimídia do projeto (ref.cit. híbrido de HQ e conto) foi totalmente acidental: entusiasta de gibis, tentei convencer desesperadamente minha namorada, o talento de verdade, a ilustrar a história inteira. Usei muita chantagem emocional e ela topou fazer quatro páginas (que posteriormente viraram cinco páginas através do uso de bruxaria). Com traço gringo e muito bom gosto, uns três amigos comparam os desenhos da Niege com Daniel Clowes e a família ficou em chamas (de felicidade pelo elogio e por escancarar mais um plágio: “Wilson”, do Clowes, também é uma saga [muito melhor] sobre um infeliz errante nesse mundo cão [e até o nome rima com Danton, por deus]).

O resto deveria ser preenchido pelo meu precário domínio da língua portuguesa (esse só menor que meu domínio do desenho, que me impedia de desenhar a história em primeiro lugar). Enfim, saiu aquilo. Quem não achou de mau gosto, elogiou e pediu mais. Como não sei lidar com elogios, logo abri as perninhas e comecei a escrever um volume 2 para estragar com tudo.

No mais: desculpa, cara. Mesmo mesmo.

Dia D

Plano de marke†ing

Nova Reforma Ortográfica

Aquela infelicidade de ter que clicar pra ler.

Lipograma

Segunda piada infame do dia. Desculpa, pessoal.