Resenha (?): Lobo – Infanticídio

Acredito muito no papel vital dos daddy issues pra criar adultos massas e divertidos. Uma surra marcante, um adultério trapalhão e, naturalmente, alguns esporros ferozes moldam as pessoas mais interessantes para ir pra um bar conversar. Minha história é a seguinte: 1999 (acho), Rio Grande – RS. Um jovem eu, com  9 anos, passeia com seu pai pela Galeria Chaves, onde havia um estúdio de tatuagem/loja de quadrinhos.

Importante:  meu pai é motoqueiro (ele se chama de motociclista, diz que motoqueiro é quem entrega pizza), é dos Abutres e assistiu Easy Rider umas 100 vezes (lembro de ter uns 10 anos, a gente assistindo a VHS e começa aquela cena do Dennis Hopper e o Peter Fonda com as minas no cemitério, meu pai vira pra mim, sorri e diz “Que festinha hein?!”). Logo, passei toda minha infância cercado de canções do Steppenwolf, couro e tatuagens. Fui várias vezes acompanhar meu pai nessas dermopigmentações dele e essa era mais uma delas.

Enquanto ele conversava com o tatuador, eu olhava as histórias em quadrinhos no segundo andar do estúdio. Eram os anos 90, então tinha muito Spawn, uns Aranhas e LOBO. Ao ver o desenho do Lobo lembrei de uma matéria na Herói, onde mostrava ele surrando o Papai-Noel e dando uns catos fodidos na Mamãe-Noel. Na hora decidi que era Lobo que eu ia levar pra casa. Só que não era a edição de Natal que tinha lá, e foi aí que ficou islâmico.

Era uma edição chamada INFANTICÍDIO e tinha na capa um bebê de fraldas em posição de duelo com o Lobo. Não assimilei nenhuma vibe errada com isso ou com o “Sugerido para Leitores Adultos” em cima do preço. Porém o “Parte 1 de 2” tenha me dado os blues um pouco (ser criança e depender de adultos pra comprar gibi = nunca ir na banca e perder edições/cronologia).

Corri até meu pai e sentenciei, orgulhoso: “Já escolhi!”. Meu pai pegou a revista na mão e, com a calma de um samurai prestes a arrancar teu coração, me perguntou “Tu sabe o que é infanticídio?”, não tive tempo pra responder. Ele continuou, levemente puto “Infanticídio é um pai que mata um filho. Tu sabia disso? Tu quer ler sobre um pai que mata um filho?”. Tive que concordar que, olhando por esse prisma, não era a melhor das idéias. Não ganhei a revista. Passei um tempo lendo quadrinhos ainda, porém sem muito afinco. Até pelos 15 anos reacender a chama do gibi e, até o momento que digito, estar lotando meu quarto com impressões com desenhos e balões. Li coisas muito piores que Lobo de lá pra cá, mas não Lobo, muito menos Infanticídio. Até agora.

Ok, baixei aqui e vou ler.

Maurício de Sousa for the win.

Fatality, terminei de ler. Aliás, fatality é uma bela maneira de comunicar a conclusão de leitura de Lobo. Violência gratuita e cômica em praticamente todas as páginas. Logo no começo ele briga com uma mina halterofilista gigantesca campeã de vale-tudo e eles usam nerds como armas. Fantástico, eu ia adorar ler isso quando pequeno. E toda demência do Keith Giffen (com ajuda do Alan Grant nos diálogos) fica muito preza com seu próprio desenho, oscilando entre um lance realista padrão Marvel/DC com uma linha mais cartoon. Lobo não tem contexto nas falas, e isso não é uma crítica. Mas o cara se comunica basicamente por frases de efeito e comentários misóginos. E bóra concordar, se teu nome fosse LOBO, tu ia ser exatamente assim.

Lá pela décima página eu parei de ler e coloquei um Motorhead pra continuar a fruição da obra. Nosso protagonista é um Lemmy alienígena (pós-apocalíptico?) que trabalha como caça-recompensas. Nessas viagens acaba getting it on com umas damas, as engravidando e indo embora. E consequentemente desencadeando um exército de 200 filhos bastardos que clamam por vingança. Poesia, cara. Poesia. Daddy issues reaparece, sendo o mote do gibi.

Taí, curti Lobo. Uma bobice gigantesca e divertida. Não pilhei de ler mais histórias agora, na fissura frenética, mas curti. Fiquei afim de dar uma chance pra contemporânea Tank Girl (que remete a umas childhood memories também).

Foi uma honra, cavalheiros.

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2 Respostas para “Resenha (?): Lobo – Infanticídio

  1. Pingback: Tweets that mention Resenha (?): Lobo – Infanticídio « Confraria Onanista -- Topsy.com

  2. Até pilhei de ler, mesmo sabendo que certamente vai ser inferior a resenha. Porém, pra mim, Tank Girl é um not total. Peter Pank é TRU ❤

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