Segurança na estrada

Ao entrar em um ônibus intermunicipal, a primeira coisa que eu faço é olhar os outros passageiros. Acredito que é o que todos fazem. Mas eu olho para os colocar em uma balança que tenho na cabeça. Procuro alguma criança, uma menina quietinha lendo um livro ou um gordinho de óculos jogando no computador. Depois procuro senhorinhas sorridentes, enfermeiras e outras pessoas que mereçam viver. Até casais apaixonados já valem. Se a grande maioria do ônibus for composta por jovens ouvindo música no celular e adultos emburrados com suas vidas profissionais, eu já penso: ó a merda, impossível existir força divina que se importe com esse povinho, essa gentalha.

Então eu sento e coloco o cinto. Logo ao ouvir o click, já imagino o ônibus capotando, meu corpo voando em direção ao teto do veículo e eu quebrando o pescoço. Ou imagino eu sendo jogado pro lado, dando de cara em um vidro que se depedaça e crava mil caquinhos no meu rosto. Mas então eu me acalmo: todas as vezes que eu imaginei um acidente, o acidente não aconteceu. Então, segundo as estatísticas, se eu acabei de imaginar um acidente, não vai acontecer nada, tá tranquilo, fica calmo. Quando for pra derrapar na estrada e ser esmagado pela lataria do ônibus, eu não vou pensar nada, vai ser de surpresa.  Tem vezes que já estamos viajando faz uma hora e eu esqueci do protocolo espírito de corpo e nem tive nenhum pensamento ruim. Tô ali lendo um gibi quando me vem a visão do meu corpo cheio de cortes e bento em sangue voando e indo parar do lado do motorista, com o câmbio atravessando meu olho. Com essa imagem em mente, eu me acalmo com a certeza de que nada vai acontecer e sussurro: ufa, essa foi por pouco!

Agora, antes de botar um ponto final nesse texto, eu vou bater três vezes na madeira. Eu e a minha senhora temos feito isso e tem dado muito certo, é um dado quantitativo: todas tragédias que proclamamos e depois batemos três vezes na madeira não aconteceram, foram devidamente evitadas, e o mérito é,  a única explicação plausível, das três nobres pancadinhas em uma mesa ou um assoalho de chão.

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