Hans Donner

I

Era uma noite de sexta-feira em Roca Sales, interior do Rio Grande do Sul e berço de um cantor de coral premiadíssimo que atendia pela alcunha de Gil de Roca Sales, veja você. Como vocês podem imaginar,  a alternativa de entretenimento mais popular de Roca Sales é o bom e velho encher o cu de cachaça, ou apenas encher o cudi. Éramos jovens e desesperados qualquer coisa que escandalizasse as senhorinhas, então era exatamente isso que fazíamos. Eu transitava por um bar onde uma banda tocava Boston ou Asia ou alguma outra banda geográfica enquanto argumentava agressivamente com uma suposta menina bissexual falando coisas como “Ok, ok. Eu entendi que tu vê beleza no corpo feminino, admira a estrutura óssea, ok. Eu admiro muito a beleza de uma poltrona mas nem por isso quero copular com ela. Digo, é muito fácil dar beijinho numa menina que parece a Natalie Portman, eu quero é ver se tu tem o que precisa pra enfiar a cara numa buceta”. Eu nunca fiz muitos amigos nas festinhas. Do meu lado, um rapaz com postura militar falava “Nós somos homens, dominamos o fogo. Se eu sentir fome, eu caço um javali”, afirmação essa que fez os amigos responderem um “Pôrra!” em uníssono. Do meu outro lado um sujeito franzino com voz de palestrante contava “…foi então que eu olhei pra baixo, no meio do banho e percebi com clareza: minhas bolas são os grandes lábios e meu pau é o clitóris”. Decido que aquilo tudo era muito bonito mas não é o melhor ambiente para quem está bebendo gin (é a bebida mais fácil de se pronunciar quando já se está bêbado) e tem a resistência para álcool de uma menina de 10 anos. Então caminho até a rua do bar para tropeçar e cair de cabeça em um paralama de um fusca, ó a merda. “Tu tem a resistência para álcool de uma menina de 10 anos”, me disse o paralama  enquanto eu levantava fingindo que tava tudo bem e eu tava legal. “Haha, só um tombo, gente”, eu dizia enquanto percebia uma crescente mancha de sangue aparecendo em minha camiseta, me controlando para não ter um faniquinto em público. Que tragédia.

II

Estou em um hospital e um médico costura minha cabeça. Eu não lembro exatamente como cheguei ali e começo a falar “Seu doutor, eu vou ficar retardado? Todo torto que nem o Stephen Hawking? Se bem que o Stephen Hawking não é retardado, né? Ele é só todo torto. Inclusive no colégio as professoras falavam que eu não tinha postura na cadeira e eu falava pra elas olharem o Stephen Hawking, todo errado lá, super inteligente. Não é, seu doutor?”. Minha cabeça doía bastante e tenho quase certeza que o médico não usou anestesia local. Eu mereci, certo ele. Então olho pra baixo e mexo as pernas. “Ufa, hein doutor? Imagina se eu dava uma de Marcelo Rubens Paiva? Imagina? Eu até li ‘Adeus Ano Velho’, sabe doutor, mas o problema é que na primeira página eu já sabia que ele não voltaria a andar. O cara é um spoiler ambulante do próprio livro. Imagina que chato”, eu dizia balançando as pernas pra ter certeza absoluta da alta qualidade da minha coordenação motora.

III

Acordo na minha cama, toco na cabeça e sinto aquele algodão com gaze na ponta do meu dedo e o gosto de ter envergonhado todos que amo no céu da minha boca. Ouço “Foram seis pontos nessa cabeça. A gente cortou um pouco do cabelo pra conseguir ver a ferida” como um veterano da guerra que tem um flashback do Vietnam. Ainda temeroso com as sequelas que essa contusão poderia ocasionar no meu frágil lóbulo central, decido tentar ler algo para testar meu processo cognitivo. Levanto meu corpo e carrego uns 70 quilos de dor muscular e ressaca moral até  o armário para colocar uma camiseta e não precisar encarar meu torso nu até o próximo banho. Pego a primeira da pilha, uma branca com gola v que uma tia me deu de presente e eu ainda não havia usado. Ao chegar no banheiro, me olho no espelho e percebo que embora todas outras pessoas pareçam livres e cheias de paz de espírito ao usar camiseta branca com gola v, eu apenas remetia a um paciente psiquiátrico. Pego uma Veja jogada no chão. Sento no vaso, abro a revista em uma página aleatória e me deparo com a manchete, em caixa alta: HANS DONNER ABRE CENTRO DE UFOLOGIA EM FORMATO DE RELÓGIO . Fecho a revista e encaro meu reflexo em posição fecal no espelho do box, aceitando que sacrifiquei todas minhas faculdades mentais.

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3 Respostas para “Hans Donner

  1. Especialmente abrilhantados o paralamas falante e “um spoiler ambulante do próprio livro”.

    “sacrifiquei todas minhas faculdades mentais”: lendo Veja, queria o quê?

  2. É bem fácil falar “rum” também… hahahaha sensacional o texto!

  3. Curto demais seus textos, parabéns!

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