O meu mimimi pesa uma tonelada

Faz uns meses que um portal me convidou pra escrever sobre, olha só, ser um estudante de Comunicação Social. O texto nunca foi aprovado. 

‘Que equívoco! Que tremenda cagada!’ era o pensamento que pipocava na minha cabeça de segunda a sexta por volta das 19 horas, enquanto eu caminhava em direção à faculdade. A frustração não vinha (pelo menos não só) do sofrimento sedentário que era subir a rua íngreme da academia, suando e ofegante. O que machucava mesmo era a sensação constante de que minha vida acadêmica era um grande desperdício de dinheiro e tempo e que todos aqueles 5 anos indo ali só iam servir para comprar um diploma. Como quando tu tem que refazer a Carteira de Identidade e precisa esperar por horas em uma cadeirinha desconfortável, só que na potência mil. Um esforço monstro por um documentinho.

Talvez eu seja muito inocente. Sempre que me chamam de cínico ou me acusam de sarcasmo, eu olho em volta confuso só para perceber que minha ingenuidade é tão grande que passa por ironia. Mas o fato é que eu acreditei que cursar comunicação seria um estímulo criativo, um ambiente onde tu seria incentivado a ser diferente e descobrir quem tu é. No lugar disso, tudo que eu encontrei foi um exército de proto-adultinhos, com suas camisas sociais pra dentro da calça jeans, suas roupas da Vulgo, obcecados pelas suas vidas profissionais, por fazer networking, cases, jobs e dezenas de outros termos em inglês que só serviram para eu, mentalmente, os substituir por fistfuck e aliviar a dor por alguns segundos (‘o feedback do cliente’ vira instantaneamente ‘o fistfuck do cliente’). Me deixava aflito ver gente na casa dos 20 se sentindo satisfeito em seguir a vida fazendo plano de marketing, tendo como maior objetivo na Terra um estágio com redes sociais. Pode soar afetado e pedante, mas era uma apatia tão grande com qualquer coisa que não fossem eles e suas vidas profissionais, um cinismo com qualquer intenção política, artística, espiritual, que seja, que não parecia correto. Mesmo que você envelheça para um emprego burocrátivo de escritório, é triste imaginar que não houve um período de latência utópica, para perseguir sonhos particulares, de uma visão de mudo. Ser desde cedo já focado em metas, lucros e planejamento estratégico acaba até com a imagem romântica do jovem idealista sendo lentamente corrompido.

Não que isso fosse culpa das pessoas, como se simplesmente me deu um pé frio e eu caí num limbo de carcaças sem alma que se alimentam de citações do Philip Kotler. A própria faculdade é culpada. Talvez seja pura ingenuidade de novo, mas eu sempre imaginei a faculdade, a academia, como um ambiente filosófico, designado para reflexão, pensamento e discussão. O que eu encontrei foi um curso técnico. Uma adaptação em forma de prédio de uma apostila profissionalizante. Lógico que houve ótimos professores, pessoas inspiradas e motivadas em apresentar as várias facetas da comunicação e indagar as questões morais da profissão. Mas esses eram 15% do curso e, quando falavam, eram ignorados por uma muralha de notebooks que tapava o rosto da maioria dos alunos.

Claro que não foi um completo desperdício, vários desdobramentos interessantes ocorreram no meu caráter, um empreguinho agradabilíssimo e bons amigos talentosos (talento esse desenvolvido por esforço próprio, em seu tempo livre e fora da faculdade). Ou pode ser bem mais simples: eu escolhi o curso errado e tudo que falei é uma grande visão turva da realidade, e talvez uma faculdade de Comunicação Social seja o paraíso pra ti. Pode ser. Ou ainda: eu simplesmente não nasci para vida acadêmica, não é pra mim. Muito fofoquei dos outros nos parágrafos acima, mas o fato é que sou um aluno extremamente relapso. Vai que o meu negócio é ficar em casa, lendo gibi, comendo chocolate, ajudando a namorada a instalar o ventilador de teto, essas coisas. Mas também, que ideia é essa de ter que escolher tua profissão ao fim do Ensino Médio? Quando vejo os jovens com 16 anos, de boné pra trás, indo fazer vestibular, chego a ouvir meu idoso interior repetindo “ó a merda, ó a merda!” enquanto estica as pernas para os pés desincharem.

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8 Respostas para “O meu mimimi pesa uma tonelada

  1. É a pura verdade, passe pela mesma coisa. Entrei na faculdade de comunicação social (ó a merda) preparado para passar por todos os desafios intelectuais mais complexos da minha vida, mas a única coisa mais próxima de desafio foi aguentar aqueles 85%, os pseudo-alunos (não se pode chamar de aluno alguém que foge do conhecimento). Compartilho a sua opinião, acho que os cursos de graduação estão se equiparando ao ensino médio em qualidade, ou seja, estamos graduando gente sem ética, gente que não sabe a influência que exerce sobra a sociedade e as consequências do seu trabalho.

  2. É uma das escolhas mais difíceis da vida e temos que fazê-la tão cedo! Assunto complicado realmente.

  3. Essa faculdade era particular, né? Pois eu não sei se é meu curso (psicologia) ou se é o caso de eu estar numa faculdade pública, mas tudo o que vc disse sobre como vc imaginava ser uma faculdade, a minha é. Não todo tempo, claro, mas a maioria dele.

  4. Eu passei pela mesma frustração ao fazer o ensino técnico de administração. Tava pedindo também né, mas eu tinha 14 anos!!!! Fiquei de saco cheio de todos aqueles adolescentes com pensamentos tão… corporativos!! Decidi ser estupidamente utópica, fazer o que eu gostava apenas pelo fato de gostar. Se eu vou ser pobre um dia? Provável. Mas estou fazendo história e realmente exercitando toda essas possibilidades de reflexão e crítica que você queria. Esses cursos que as pessoas escolhem pelo salário são fadados a ser mais rasos em questionamentos e repletos de feedbacks, networks e etc….

  5. Finalmente vejo alguém reclamar da faculdade e não jogar a culpa apenas no curso ou nos professores, mas admitir para si mesmo a possibilidade de que estivesse no lugar errado, na hora errada. Não que seja necessariamente esse o caso; não faço a menor idéia de qual seja a sua situação. A maioria dos que reclamam de seu curso universitário são justamente os alunos que ficam com a cara enfiada no notebook, em vez de tentar tirar algum proveito das aulas. E você, bem ou mal, ao menos usou o desgosto como ponto de partida para refletir sobre a própria existência. Parabéns!

  6. Quando eu estava no colégio, sabia que tinha mais coisas na vida do que aquilo. Quando entrei na faculdade pensei a mesma coisa. Mas parece que ninguém mais se lembrou disso.

  7. Reblogged this on Eu queria ter uma bombae comentado:
    ai domingo a noite e suas reflexões…

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