Bermudinha: Um Manifesto

A vida é recheada de injustiças e sofrimento, eu sei. Fome, violência, guerra. São dezenas de horrores que invadem nossa mente e estragam nossos dias. O pior deles, particularmente, é o preconceito. Principalmente o preconceito contra a bermudinha. Por anos o homem de bermuda é visto como menor, é chamado de mendigo, de guri de 12 anos, de bagaceiro. Nos negam empregos, afirmando que ir de bermuda para o escritório mostra uma falta de profissionalismo. Sogros nos negam as mãos de suas filhas. Até senhorinhas com apenas 40% da visão negam nossa ajuda para atravessar a rua.

A bermudinha harmoniza muito bem com um casaco ou um moletom. Mas shorts sozinhos já escandalizam a sociedade, imagine com mangas compridas na metade superior do corpo. “Não sente frio nas pernas, não?”, perguntam, com autoridade no olhar, exigindo uma calça jeans. E aí enxergamos toda hipocrisia do planeta: você não vê pessoas mandando o cara de calça jeans e camiseta de manga curta ir colocar um casaco com “Só de calça, é? Não sente frios nos braços, não?”. Em pleno janeiro podemos ver homens passeando por aí de calça jeans e camiseta enquanto o mundo sorri para eles. Eventualmente até nos sábados, no bar, descartando o argumento de que o trabalho os obriga a usar calças.

Essa convenção social não faz sentido nem anatomicamente: as pernas se exercitam bem mais que os braços através das pequenas atividades do dia-a-dia e, consequentemente, passam menos frio. O tronco é bem mais frágil que a panturrilha. Então, vejam vocês, a marginalizada bermudinha e casaco é até mais eficaz que o canastrão calça jeans e camiseta. É algo que as mulheres entendem e aproveitam: quantas vezes você já viu aquela gatinha meio Zooey Deschanel usando um vestido florido e um casaco de lã por cima? Que hegemonia feminina é essa? É uma questão de beleza? Por terem pernas mais bonitas, mulheres ganham o aval de as mostrarem em público, no trabalho e na igreja? Quando vou ver um galã de cinema vestindo um short de tactel enquanto diz para sua coadjuvante que eles sempre terão Paris?

São tantas perguntas sem resposta. Devemos fazer justiça com nossas mãos: pratique bullying, deboche do homem de calça jeans e camiseta. Aponte, dê risada. Maltrate. Vai ser difícil: nossas bermudas nos ensinaram o importância da humildade e gentileza, mas é um mal necessário. O mundo vai se repartir em dois e aí nossas canelas poderão respirar em paz.

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Uma resposta para “Bermudinha: Um Manifesto

  1. Por anos quis dizer tudo isso e nunca tive coragem, Chini, tem também quando a gente vai buscar nossa irmã mais nova de bermudinha na escola e ela fica morrendo de vergonha, isso me deixa mal.

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