um pequeno relato sobre infância, rpg e suor

meu único contato com rpg foi no verão de 1998 em jaguarão, a cidade mais feia de todo rio grande do sul. a família da minha vó é de lá e era costume passar o carnaval na casa das tias, com primos amontoados. a população da cidade, que era de uns trinta mil habitantes, triplicava no carnaval, mesmo sendo uma festa humilde (uma coisa maneira eram os mascarados: homens adultos com máscaras do pânico e de monstro travavam um duelo com crianças armadas de pistolas d’água e balões).

enfim, o rpg: era uma tarde de carnaval e meu primo, um alemão gordinho, apareceu com uma revista ‘tormenta’. não era nem gurps ou d&d, era 3d&t, um rpg for dummies criado pelo responsável por um mangá pt-br chamado holy avenger, vejam vocês. está quente e nós éramos três crianças levemente obesas falando de elfos, anões e bardos. lembro de preencher aquela ficha, as bolinhas de “lábia” ou “defesa”, com suor acumulado no buço infantil. o elástico daqueles shorts dos anos 90, com o rosto do fido dido estampado, apertava a cintura do meu primo, desencadeando várias dobrinhas de gordura que, quando esticadas, deixavam marcas vermelhas de assadura na sua barriga. o terceiro jogador era um uruguaiozinho que usava a morte precoce da mãe para apalpar meninas (ele tinha um interruptor escondido perto da cama e ficava apagando a luz, como se fosse assombração do fantasma da mãe. as meninas, assustadas, se aproximavam dele, facilitando que ele apertasse seus peitinhos pouco desenvolvidos). lembro daqueles três corpos pequenos, gordos e suados sentados em círculo no chão da sala de uma tia-avó que não tirava os plásticos dos sofás, com o sol entrando por umas frestas da janela enquanto preparávamos todas as fichas e revisávamos as regras. no fim, tivemos uma discussão sobre quem seria o mestre, acabamos desistindo de jogar e saímos para ir na casa de um quarto amigo, o único conhecido com uma irmã mais velha, a mulher ideal para todos nós.

chegando lá, a irmã estava com uns cremes estranhíssimos na face, várias pintinhas amareladas espalhadas pelo rosto, e a mãe dele, crente, nos obrigou a ir em um culto com ela.

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