O homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida

Essa é a história de Vinícius Perez, o homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida. Opções não faltaram, mas a triste figura de Vinícius Perez sempre foi na fila disfuncional, aquela com a atendente que sai para o almoço ou a caixa do mercado que grita algum código interno e fica minutos esperando o gerente aparecer com trocados para sua máquina registradora. Às vezes Vinícius, esse infeliz otimista, acredita que sua sorte vai mudar quando, entre dezenas de filas longas, acaba parando em uma com apenas quatro pessoas à sua frente, apenas pare descobrir que uma senhorinha vai pagar em moedas e, ao perceber que não trouxe dinheiro suficiente, vai devolver alguns produtos. Seu destino já estava decidido no dia de seu nascimento: sua mãe, na melhor das intenções, vejam bem, optou pelo parto natural. Uma cesariana, em média, dura 15 minutos. O infanto Vinícius passou 8 horas entre empurrões, pausas e contrações até ser devidamente expelido do corpo de sua genitora.

Nesse exato momento Vinícius Perez está na fila do guichê 12 de uma estação rodoviária as oito e quarenta da manhã. A experiência da fila por si já é traumática, mas o calor do dia somado ao peso da mochila nas suas costas (que aperta a camisa, acentuando o contorno de pequenos mamilos na roupa) tornam tudo ainda mais desagradável para esse jovem cujo sedentarismo corrói seu corpo em uma velocidade meteórica. Por já ter passado um considerável número de primaveras nesse planeta, sempre em filas demoradas, Vinícius desenvolveu alguns jogos para passar o tempo. Vinícius elege A Corrida como a atividade inicial. A Corrida é simples: basta olhar para a fila ao lado e encarar a pessoa que está na mesma posição que você (ou seja, se tem oito pessoas na sua frente, veja a nona pessoa da fila ao seu lado). A partida é intensa e, aparentemente, justa: as duas filas até contém o mesmo número de idosos. Na fila de Vinícius há uma mulher com bebê de colo (ao reparar, Vinícius, esse pessimista que causa nada além de desconforto aos convivas, amaldiçoa a mãe e seu recém nascido com ofensas que eu, particularmente, prefiro não citar). Quatro pessoas da fila d’O Rival já compararam as suas passagens e Vinícius ainda não deu um passo sequer. A mãe e o bebê compram a passagem em menos de um minuto e Vinícius sente uma pontadinha de remorso (que dura pouco e logo é esquecido por Vinícius, esse desprezível). A partida segue competitiva e as pessoas vão comprando suas passagens. Vinícius e O Rival ainda estão empatados. Vinícius olha para seu guichê e vê um jovem de boné. No guichê d’O Rival há a idosa já citadas. Vinícius sorri, pelo menos até perceber que o jovem de boné pegou um celular e, de maneira confusa, começou a descrever todos horários e variações de ônibus para sua mãe. ‘Tem janela?’, o jovem perguntava para a caixa. ‘Não tem, mãe’, respondia para o celular. Quando o adolescente finalmente conclui a compra até O Rival já havia sumido da área de passagens da rodoviária.

Vinícius então iniciou seu segundo passatempo de fila, o (um tanto infantil, ao meu ver) Jogo do Ódio. Embora o nome incite competitividade, o Jogo do Ódio nada mais é que um exercício criativo onde você, bem, odeia seja que for que esteja a sua frente. Você faz deduções preconceituosas sobre a pessoa, julga suas roupas, sua postura lombar, e, principalmente (é o favorito do Vinícius, essa criatura pedante), imagina maneiras de tirar a vida do pobre cidadão que nada fez para você. Vinícius, brincando com um molho de chaves no bolso, imagina como seria cravar a chave do portão (a mais grossa, cilíndrica e serrilhada de todas chaves) no pescoço do homem. Não é necessária toda violência, que fique claro. Tem dias em que Vinícius está bem alimentado e apenas imagina agressões pequenas: um jovial chute na bunda, um peteleco atrás da orelha. Há alvos especiais: quando alguém ouve música no celular, Vinícius delira em um thriller de espionagem que, eventualmente, culmina nele, todo de preto e touca cobrindo o rosto, invadindo a casa da pessoa que andou molestando sua audição com música alta em lugar público. É noite, está escuro e Vinícius caminha até o quarto onde a pessoa dorme. Do lado da cama, ele coloca seu pênis pra fora, penetrando apenas a pontinha da glande dentro da orelha de seu nêmesis por metade de segundo, e, com a mesma rapidez que surgiu, some. Toda fugacidade da agressão é proposital e tem como objetivo deixar para todo sempre a dúvida no inconsciente da vítima (‘Aquilo foi real? De onde vem essa súbita vontade de colocar fones de ouvido?’, costumam pensar, anos depois). Vinícius, esse eterno gurizinho de 13 anos, usa o próprio pênis para o ato pois ainda tem a idade mental de quem acredita que o principal papel do pênis não é sexual nem fisiológico: para ele (esse saco de complexos) sua genitália é um construção bélica feita para desencadear o caos & a danação. Pra te ser sincero, me deixa um tanto triste, esse Vinícius.

Vinícius, essa coisinha narcisista, só acorda do transe quando é abordado por um mendigo. ‘Tô sem nada, cara’, ele diz. O mendigo apenas o encara de volta. ‘Tô te falando, bicho’, ele diz, com a vozinha assustada já fraquejando. O mendigo o olha como quem sabe que ele tem um dinheiro. Vinícius coloca a mão no bolso e fica alisando as duas notas lá se encontram: uma de 50 reais e uma de 2. Ele quer tirar a de dois (Vinícius, esse imbecil, tem medo de tirar muito dinheiro do bolso na frente do mendigo) e estuda cada textura do papel até ter certeza que pegou a nota mais baixa. Olha para a mão e encontra a onça na nota amarelada. Devolve o dinheiro para o bolso em um gesto brusco e vergonhoso, pegando a azulada notinha de 2 reais. Entrega a nota para o mendigo, que vai embora ainda sem dizer nada. O homem atrás dele, um senhor de meia idade que está suando muito dentro de seu traje social, toca no seu ombro e diz ‘Nem na rodoviária o cara pode ter sossego’. Vinícius, como que através de um colapso nervoso, perde a fobia de falar com estranhos e responde com um convidativo ‘Ainda mais nessa filinha que a gente foi parar, né?’. O senhor, empolgado com a possibilidade de criticar, aponta com os olhos para a caixa do guichê, uma jovem negra, e diz ‘Tinha que ser’, passando sutilmente o dedo indicador no braço e pulso, como aqueles jogadores de futebol que são acusados de racismo. Vinícius, esse animal sem dignidade ou coragem, sabe que aquele deveria responder aquele velho racista com palavras muito hostis e até, quem sabe, agressão física. Mas Vinícius é desses que não consegue se impor nunca e o máximo que responde é um baixinho ‘Não sei se é bem assim, não’. Sentindo vergonha da sua inatividade, Vinícius passa seus últimos minutos apenas explorando a aversão que sente por si próprio e o constrangimento crescente que é ser ele mesmo.

Finalmente a caixa o atende. ‘Quero o pra Porto Alegre das nove e meia’. A moça do guichê digita e responde um direto ‘Lotado. Só tem lugar no das quatro da tarde’. Vinícius suspira e compra a passagem, aproveitando a manhã livre para passar no banco e no correio.

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3 Respostas para “O homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida

  1. Sou o tipo de pessoa que riu alto de como você escreveu “d’O Rival”.

  2. tive uma experiência parecida com a parte do racistinha a paisana. um senhor (mais idoso) mandou uma dessa justamente em uma fila (era um bobs, nao rodoviaria) e minha reação inicial foi travar, virar o rosto rápido e fingir que não estava na conversa. mas aí entrei na nóia que alguém teria escutado o que ele tinha falado e ia entender que eu estava corroborando com o crime a céu aberto ali sendo cometido (sou muito auto-consciente da minha aparência ariana). o que fiz senhoras e senhores? isso, puxei assunto com a pessoa da frente “eu não acredito, sai de casa pra ficar falando merda pros outros assim” “oi, quem?” “porra, esse velho aqui” – a mulher da frente trava e vira o rosto rápido, fingindo não estar na minha conversa de odiador de velhos

  3. Cara, adoro seus textos. Continue escrevendo, você é muito bom.

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