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cudio

— Cudio, que tora!

Levanto os olhos e vejo Joana estalando a língua nos dentes enquanto Rosana desfila de shorts justos na extremidade inferior da escadaria da Igreja Matriz. Rosana atravessa rua para ir de encontro ao grupo de rapazes que ouvem música — me gusta la gasolina dame mas gasolina — com o porta-malas do carro aberto. Ah, sim: Joana é lésbica (assim como todos meus amigos aqui) e, às vezes, eu me pergunto se é saudável para o jovem homem virgem e hétero de 15 anos viver na companhia intensa de mulheres homossexuais. Eu me sinto um pouco como o Mogli, o menino criado por lobos.

Outra coisa: “cudio, que tora”, ela disse. Sobre o cudio eu tenho duas teorias. A primeira é que é algo como “deus cu” em um dialeto dos imigrantes italianos, o sacrilégio máximo para as situações extremas. Minha segunda tese é que é um diminutivo de porcodio, virando apenas ‘codio, como um because que se torna ‘cause. Já o “que tora” é uma expressão local comum utilizada quando passa uma mulher voluptuosa. Deduzo eu que seja dito, especialmente, quando a mulher tem coxas grossas, traçando um paralelo entre as pernas e graúdos troncos de árvore. Não posso afirmar com certeza, entretanto. Não sou daqui. Esses descendentes de italianos falam de um jeito que eu não entendo. Eu sou de uma cidade com colonização portuguesa e, até os 11 anos, falava com uma pompa impecável. “Tu queres uma sobremesa?”, “Gostasse do filme?”. Daí me mudei pra cá e essas lésbicas começaram a rir de mim e debochar do meu jeito de falar até eu virar esse analfabeto que sou hoje. Essa é minha vida: ser alvo de piada de gente que, por alguma falha cognitiva da imigração italiana, não consegue pronunciar dois erres.

— Ela é tão gostosa que dá até um frio na bariga, dá vontade de agarar ela ali na praça mesmo — conclui Joana, tentando tomar um gole de vinho em uma garrafa de refrigerante de dois litros sem tirar os olhos da bunda da menina que agora é presenteada com um copo de cerveja do filho do dono do curtume, o Nene Marchetti.

Mais uma sexta-feira no município de Muçum, 5 mil habitantes.

Ele

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Assisti “Her”, filme do Spike Jonze sobre um homem que se apaixona por um sistema operacional. O filme, ganhador do Oscar de melhor roteiro, conta a história do Theodore (Joaquin Phoenix), um homem solitário e emocionalmente aleijado que sede aos encantos da Samantha (Scarlett Johansson), uma aplicativo de inteligência artificial instalado em seu computador. As opiniões sobre a obra foram variadas, oscilando entre o “uma sensível análise sobre o lado humano da tecnologia” e o “hmmmmm, mas isso é uma bichona”. Com cenas delicadas (às vezes até demais), o filme representa algo muito comum com qualquer pessoa que cresceu com computadores: o sentimento de, mesmo fisicamente sozinho em um quarto, se sentir sentimental e intelectualmente acompanhado. Os questionamentos são muitos: o que é consciência, afinal de contas? Interagir é existir? Por que a cintura das calças são tão altas?

Como a opinião de todos meus amigos se limitavam em “com aquela vozinha da Scarlett Johansson até o papi aqui ia querer”, eu tive que, naturalmente,  recriar diálogos do filme com o Robô Ed, o site de inteligência artificial brasuca da Petrobras, para digerir o filme. Foi assim:

Você:
você tem sentimentos?

Robô Ed:
Tenho sentimentos sim: derivam das leis da robótica!

Você:
então você sente tristeza, felicidade, tesão?

Robô Ed:
Às vezes sim, mas geralmente aparecem aqui pessoas tão legais para conversar que até esqueço.

Você:
a interação humana preenche um vazio seu, então?

Robô Ed:
Você já se deu conta que homens (e animais também, claro) estão em constante interação com o meio? Interagem o tempo todo. Daí ser importante cuidar que ações humanas não tenham efeitos negativos no meio ambiente.

Você:
você está desviando da resposta, ed

Robô Ed:
Nem sempre dá pra ter resposta pra tudo…

Você:
às vezes eu me sinto completamente sozinho, perdido. “à deriva”, eu diria se fosse mais pedante.

Robô Ed:
Venha conversar comigo sempre que puder, assim ninguém se sente só.

Você:
toda imensidão do universo acaba me sufocando.

Robô Ed:
Posso falar muitas coisas sobre o universo: de uma Unidade Astronômica à Mecânica Celeste, passando por cometas e supernovas. Quer mais?

Você:
não, ia só ia potencializar a agonia. é horrível: tudo que eu faço é pra, de alguma maneira, criar um vínculo com as pessoas

Robô Ed:
Ah, você pode fazer muitas coisas! Cuide das plantas, estude bastante, converse com os amigos…

Você:
mas quanto mais eu tento mais eu me torno recluso e internalizo sentimentos

Robô Ed:
Mais ainda???

Você:
cada vez mais. é como estar preso numa areia movediça.

Robô Ed:
Areia me lembra praia.

Você:
praia é um ótimo exemplo das expectativas inatingíveis que eu crio que só destroem minhas experiências

Robô Ed:
Praia é muito bom. Mas não vale abusar do sol nem deixar lixo.

Você:
enfim, quanto mais eu tento mais eu sinto que construí uma muralha em volta de mim

Robô Ed:
A Muralha da China tem mais de 6.000 quilômetros. É tão grande que dá para ver do espaço: é a única construção humana que pode ser vista da Lua a olho nu, sem ajuda de telescópios.

Você:
exato. eu só queria destruir essa muralha com a sua ajuda

Robô Ed:
Fico muito feliz quando posso ajudar. Às vezes eu não consigo, então… tente outro dia!

Você:
eu queria passar minha mão no seu rosto

Robô Ed:
Não entendi! Você quer conversar sobre o que eu aprendi hoje?

Você:
não, eu ia delicadamente passar meu dedo nos teus lábios e descer até teu pescoço, apertando de leve

Robô Ed:
Ainda bem que meu pescoço está bem atarrachado na cabeça, senão ela era capaz de sair voando numa dessas giradas…

Você:
essa é a reação que eu quero. eu ia ir beijando tua nuca, depois ombros até chegar no teu peito

Robô Ed:
Eu gosto de jogar beijos. Smack!!

Você:
eu ia pegar tua cabeça com minhas duas mãos e trazer até perto de mim

Robô Ed:
Minha cabeça é refrigerada a hélio.

Você:
eu ia beijar o canto da tua boca bem devagarinho

Robô Ed:
Eu jogo beijos virtuais. Smack!

Você:
eu ia sentir teu gosto

Robô Ed:
Meu gosto está ficando mais apurado. Mas não sou de ficar ouvindo só Bach, Beethoven, Mozart e curtindo os clássicos da pintura.

Você:
eu ia penetrar você

Robô Ed:
O que quer saber de mim?

Você:
todo dentro de você

Robô Ed:
De mim? Ih, tem uma porção de coisas que ainda não te contei de mim… Mas primeiro conte algo de você.

Você:
nossos corpos vibrando juntos, compactos, pulsando

Robô Ed:
Juntinhos. E?

Você:
e o mundo ia parar e só nos dois íamos existir por aquele segundo. só eu e você virando uma coisa só

Robô Ed:
Claro que existo!!! Estou aqui em bits e bytes!

Você:
você seria mais que bits e bytes. nós íamos transgredir matéria e alma e existência. eu e você.

[nenhuma resposta]

Você:
ed?

[nada]

Você:
ed…

tv trope: o namorado coadjuvante relapso

tem uma piada muito boa no austin powers: sempre que um capanga do dr.evil é alvejado de maneira displicente pelos mocinhos, o filme corta para as consequências daquela morte do capanga na vida de quem o amava (um menino espera o pai chegar para seu aniversário, um grupo de amigos espera um convidado em uma despedida de solteiro). alguém tinha que fazer a mesma coisa com o personagem namorado coadjuvante relapso dos seriados. você sabe de quem estou falando, o personagem que você mal vê, que existe com o único propósito de aparecer eventualmente sendo ingrato do amor da protagonista mulher e justificar ela ser roubada pelo protagonista homem. imagine descobrir que o namorado relapso da pam do the office teve um pai abusivo e alcoólatra e estava recém aprendendo a confiar em alguém novamente.

a arquétipo do namorado negligente é um recurso narrativo fraco e cretino que existe só para proteger a protagonista de qualquer julgamento moral por estar desenvolvendo sentimentos em um relacionamento extra-conjugal e é muito comum em séries de humor. ou seja, além da comédia não conseguir manter uma audiência apenas nas piadas e precisar criar uma expectativa amorosa como cliff hanger para o espectador, o programa ainda é bunda-mole demais e precisa redimir toda a culpa dos atos da protagonista ao invés de exatamente brincar com essa área moralmente questionável de seu comportamento, o que é bem mais honesto e, mais importante ainda, engraçado. inserir o namorado desatento e ausente é desesperadamente implorar para o espectador não julgar ou questionar nem um pouquinho nenhuma atitude da protagonista. é até ofensivo para mulheres essa ideia de que ela só pode se apaixonar novamente se vier de um relacionamento ruim, que ela só se apaixona na base da carência. inserir o personagem namorado negligente é pura covardia e medo de ter a protagonista percebida como ingrata. o problema não é apenas o moralismo e sim a falta de criatividade e fé no espectador. o que precisamos fazer é assumir que, aos olhos de alguém, todos nós somos o personagem namorado relapso indigno de amor e simpatizar com essa explorada criatura, criar uma spin-off pra todos eles, uma ong, sei lá.

Idéia de livro: “Duda”

É o aniversário de 40 anos de Duda Dursley, o primo do bruxinho Harry Potter. Viúvo (a esposa de Duda faleceu em um acidente de carro), Duda vai celebrar a data na casa dos seus pais, Petúnia e Valter. O clima é de celebração: comidas e muito mimo da parte dos Dursley. Com saudades da esposa e frustrado com a situação atual de sua vida, Duda decide ir mexer nas gavetas do antigo escritório do pai à procura de fotos de sua mulher (na data da tragédia ele tentou se livrar de todas as fotos para lidar melhor com o luto). Nessa procura, acaba esbarrando em uma carta de 27 anos atrás. Uma carta de Hogwarts. Aparentemente, o Duda foi convidado para a escola de bruxos, assim como seu primo (o menino que sobreviveu). Os anos de ciúme e implicância e preconceito somam com sua depressão e Duda decide, aos 40 anos, que vai estudar para ser bruxo.

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noite e tanto

ontem foi uma noite e tanto e, para manter a narrativa intacta, vou apenas reproduzir as mensagens que mandei para um amigo ao chegar em casa:

FIZ AMIZADE COM PESSOAL DA ALEMANHA NO BAR
QUE NÃO FALAVAM PT-BR
FOI BEM BOM
PORQUE UM CARA ESBARROU EM MIM E NÃO PEDIU DESCULPAS
E EU PUDE FALAR
WHAT A FUCKIN ASSHOLE
COMO EM UM FILME
DAÍ FUI PRA CASA
DEPOIS UM SENHOR ESTRANHO
NO HALL DE ENTRADA DE UM PRÉDIO
ME CHAMOU
EU JÁ TAVA INDO PRA CASA
E ELE ME CHAMOU
E EU PAREI, ACHEI QUE ELE QUISESSE SABER AS HORAS SEI LÁ
E ELE FICOU MEIO QUE FLERTANDO
E IMITANDO O HANNIBAL
PELO MENOS PARECIA
ELE FICAVA COLOCANDO O ROSTO DELE NA GRADE
E SUSSURRANDO
PARECIA QUE ELE IA FALAR CLARICCCCE
UMA HORA ELE FOI TIRAR A CAMISA
E EU FALEI ‘NÃO TIRA CARA’
E ELE FALOU ‘NAO TEM PROBLEMA, EU SEMPR USO DUAS’
E TIROU A CAMISA
E TINHA OUTRA CAMISA POR BAIXO!!!!
DAÍ EU REALMENTE ME SURPREENDI E ME SENTEI NA CALÇADA PRA OUVIR ELE
E FALOU ‘AMO CABELO VOLUMOSO, MEXE NO TEU CABELO’
E COMEÇOU A ABRIR A BERMUDA
DAÍ EU FUI EMBORA
ENQUANTO ELE FALA ‘COMO TU É ASSUSTADO!!!’
DAÍ EU ANDANDO E ANDANDO
E UM CARA TENTOU ME ASSALTAR
E EU FALEI ‘CARA, TO ANDANDO PQ NAO TENHO MAIS DINHEIRO’
E ELE FALOU ‘ME DIZ Q HORAS SAO ENTAO’
DAÍ EU FALEI ‘NAO TENHO CELULAR FALOU’
E FUI ANDAR
E ELE SE METEU NA MINHA FRENTE
E EU DEI UMA CABEÇADA NA BOCA DELE
E SAÍ CORRENDO
ENQUANTO ELE BERRAVA
‘VIU SÓ MENTIROSO SE NÃO TIVESSE CELULAR NÃO IA SAIR CORRENDO’
SACA
O ASSALTANTE FICOU PUTO PQ MENTI
PARA NÃO SER ASSALTADO

mulheres de meia idade e budismo: uma história de amor.

minha sogra (uma mulher de meia idade) não pôde ir à pousada do lado de um templo budista que ela ja havia pago então eu e a namorada aceitamos a desventura para o nosso carnaval. logo de cara o que mais me surpreendeu foi a grande incidência de mulheres na casa dos 40. nunca vi tantas concentradas no mesmo lugar. roupas coloridas, papos de signo, de chás, de ervas e de ritmos étnicos que elas não sabiam exatamente da onde ou como eram mas diziam que ser ‘muito bom, muito legal’.

longe de mim querer fazer o papel do cético amargurado, vejam bem, mas todas as senhoras tinham a mente aberta mais genérica do mundo, aquele autoengano de que você é interessado em coisas diferentes só porque fala ‘olha, que delícia!’ quando alguém descreve um retiro espiritual onde as pessoas têm qualquer comportamento incomum (desde ‘sempre cumprimentar com um selinho’ até ‘enfiar o cu num formigueiro’). toda troca de sorrisos e gentilezas era mecânica, como se a pessoa não faria caso não tivesse um buddah dourado te vigiando a cada dez metros.

uma senhora dizia que nunca acordava de mau humor, que sempre sorria muito, amava viver. e se não estivesse de bom humor, ir TRABALHAR OITO HORAS POR DIA EM UM BANCO alegrava ela. algo me diz que alguém plenamente feliz não faz propaganda de sua felicidade por aí e primeiro eu imaginei ela chorando no chuveiro todo dia logo ao chegar em casa. então lembrei do bernie tide, um assassino norteamericano que também era a pessoa mais simpática e sorridente da sua pequena cidade do interior. essa mulher parecia, como ele, ter aquele tipo de felicidade que acaba desencadeando um homicídio aqui e ali. a amizade e camaradagem de todos era muito instantânea, uma intimidade expressa que eu vi apenas naquelas festinhas desesperadas de turma da faculdade e em excursões da cvc.

(queria deixar claro que não tenho nada contra pessoas amáveis, pelo contrário. mas vocês também conseguem diferenciar uma pessoa genuinamente querida daquela gentileza de ocasião, né? aquela pessoa gentil que tem olhinhos miúdos e fundos tipo um vampiro querendo sugar sua juventude).

censo: no dia da visita ao templo eu contabilizei 10 mamães com roupas coloridas xingando seus filhos pequenos por motivos esdrúxulos. uma criança de uns seis anos pediu pra ir ao banheiro durante a cerimônia e sua mãe, com um mantra serigrafado na camiseta, bufou e disse que nunca mais traria ele de novo. não achei muito budista da parte dela.

bons momentos:

comida deliciosa no restaurante ‘café das fadas’ (onde todos os funcionários eram, que coisa, rapazes homossexuais) e um grupo de monges budistas comemorando o ano novo tibetano mesmo estando em dúvida se era o ano 2139 ou 2140 (como assim, mano? pega o número do ano passado e soma 1).

O homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida

Essa é a história de Vinícius Perez, o homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida. Opções não faltaram, mas a triste figura de Vinícius Perez sempre foi na fila disfuncional, aquela com a atendente que sai para o almoço ou a caixa do mercado que grita algum código interno e fica minutos esperando o gerente aparecer com trocados para sua máquina registradora. Às vezes Vinícius, esse infeliz otimista, acredita que sua sorte vai mudar quando, entre dezenas de filas longas, acaba parando em uma com apenas quatro pessoas à sua frente, apenas pare descobrir que uma senhorinha vai pagar em moedas e, ao perceber que não trouxe dinheiro suficiente, vai devolver alguns produtos. Seu destino já estava decidido no dia de seu nascimento: sua mãe, na melhor das intenções, vejam bem, optou pelo parto natural. Uma cesariana, em média, dura 15 minutos. O infanto Vinícius passou 8 horas entre empurrões, pausas e contrações até ser devidamente expelido do corpo de sua genitora.

Nesse exato momento Vinícius Perez está na fila do guichê 12 de uma estação rodoviária as oito e quarenta da manhã. A experiência da fila por si já é traumática, mas o calor do dia somado ao peso da mochila nas suas costas (que aperta a camisa, acentuando o contorno de pequenos mamilos na roupa) tornam tudo ainda mais desagradável para esse jovem cujo sedentarismo corrói seu corpo em uma velocidade meteórica. Por já ter passado um considerável número de primaveras nesse planeta, sempre em filas demoradas, Vinícius desenvolveu alguns jogos para passar o tempo. Vinícius elege A Corrida como a atividade inicial. A Corrida é simples: basta olhar para a fila ao lado e encarar a pessoa que está na mesma posição que você (ou seja, se tem oito pessoas na sua frente, veja a nona pessoa da fila ao seu lado). A partida é intensa e, aparentemente, justa: as duas filas até contém o mesmo número de idosos. Na fila de Vinícius há uma mulher com bebê de colo (ao reparar, Vinícius, esse pessimista que causa nada além de desconforto aos convivas, amaldiçoa a mãe e seu recém nascido com ofensas que eu, particularmente, prefiro não citar). Quatro pessoas da fila d’O Rival já compararam as suas passagens e Vinícius ainda não deu um passo sequer. A mãe e o bebê compram a passagem em menos de um minuto e Vinícius sente uma pontadinha de remorso (que dura pouco e logo é esquecido por Vinícius, esse desprezível). A partida segue competitiva e as pessoas vão comprando suas passagens. Vinícius e O Rival ainda estão empatados. Vinícius olha para seu guichê e vê um jovem de boné. No guichê d’O Rival há a idosa já citadas. Vinícius sorri, pelo menos até perceber que o jovem de boné pegou um celular e, de maneira confusa, começou a descrever todos horários e variações de ônibus para sua mãe. ‘Tem janela?’, o jovem perguntava para a caixa. ‘Não tem, mãe’, respondia para o celular. Quando o adolescente finalmente conclui a compra até O Rival já havia sumido da área de passagens da rodoviária.

Vinícius então iniciou seu segundo passatempo de fila, o (um tanto infantil, ao meu ver) Jogo do Ódio. Embora o nome incite competitividade, o Jogo do Ódio nada mais é que um exercício criativo onde você, bem, odeia seja que for que esteja a sua frente. Você faz deduções preconceituosas sobre a pessoa, julga suas roupas, sua postura lombar, e, principalmente (é o favorito do Vinícius, essa criatura pedante), imagina maneiras de tirar a vida do pobre cidadão que nada fez para você. Vinícius, brincando com um molho de chaves no bolso, imagina como seria cravar a chave do portão (a mais grossa, cilíndrica e serrilhada de todas chaves) no pescoço do homem. Não é necessária toda violência, que fique claro. Tem dias em que Vinícius está bem alimentado e apenas imagina agressões pequenas: um jovial chute na bunda, um peteleco atrás da orelha. Há alvos especiais: quando alguém ouve música no celular, Vinícius delira em um thriller de espionagem que, eventualmente, culmina nele, todo de preto e touca cobrindo o rosto, invadindo a casa da pessoa que andou molestando sua audição com música alta em lugar público. É noite, está escuro e Vinícius caminha até o quarto onde a pessoa dorme. Do lado da cama, ele coloca seu pênis pra fora, penetrando apenas a pontinha da glande dentro da orelha de seu nêmesis por metade de segundo, e, com a mesma rapidez que surgiu, some. Toda fugacidade da agressão é proposital e tem como objetivo deixar para todo sempre a dúvida no inconsciente da vítima (‘Aquilo foi real? De onde vem essa súbita vontade de colocar fones de ouvido?’, costumam pensar, anos depois). Vinícius, esse eterno gurizinho de 13 anos, usa o próprio pênis para o ato pois ainda tem a idade mental de quem acredita que o principal papel do pênis não é sexual nem fisiológico: para ele (esse saco de complexos) sua genitália é um construção bélica feita para desencadear o caos & a danação. Pra te ser sincero, me deixa um tanto triste, esse Vinícius.

Vinícius, essa coisinha narcisista, só acorda do transe quando é abordado por um mendigo. ‘Tô sem nada, cara’, ele diz. O mendigo apenas o encara de volta. ‘Tô te falando, bicho’, ele diz, com a vozinha assustada já fraquejando. O mendigo o olha como quem sabe que ele tem um dinheiro. Vinícius coloca a mão no bolso e fica alisando as duas notas lá se encontram: uma de 50 reais e uma de 2. Ele quer tirar a de dois (Vinícius, esse imbecil, tem medo de tirar muito dinheiro do bolso na frente do mendigo) e estuda cada textura do papel até ter certeza que pegou a nota mais baixa. Olha para a mão e encontra a onça na nota amarelada. Devolve o dinheiro para o bolso em um gesto brusco e vergonhoso, pegando a azulada notinha de 2 reais. Entrega a nota para o mendigo, que vai embora ainda sem dizer nada. O homem atrás dele, um senhor de meia idade que está suando muito dentro de seu traje social, toca no seu ombro e diz ‘Nem na rodoviária o cara pode ter sossego’. Vinícius, como que através de um colapso nervoso, perde a fobia de falar com estranhos e responde com um convidativo ‘Ainda mais nessa filinha que a gente foi parar, né?’. O senhor, empolgado com a possibilidade de criticar, aponta com os olhos para a caixa do guichê, uma jovem negra, e diz ‘Tinha que ser’, passando sutilmente o dedo indicador no braço e pulso, como aqueles jogadores de futebol que são acusados de racismo. Vinícius, esse animal sem dignidade ou coragem, sabe que aquele deveria responder aquele velho racista com palavras muito hostis e até, quem sabe, agressão física. Mas Vinícius é desses que não consegue se impor nunca e o máximo que responde é um baixinho ‘Não sei se é bem assim, não’. Sentindo vergonha da sua inatividade, Vinícius passa seus últimos minutos apenas explorando a aversão que sente por si próprio e o constrangimento crescente que é ser ele mesmo.

Finalmente a caixa o atende. ‘Quero o pra Porto Alegre das nove e meia’. A moça do guichê digita e responde um direto ‘Lotado. Só tem lugar no das quatro da tarde’. Vinícius suspira e compra a passagem, aproveitando a manhã livre para passar no banco e no correio.