mulheres de meia idade e budismo: uma história de amor.

minha sogra (uma mulher de meia idade) não pôde ir à pousada do lado de um templo budista que ela ja havia pago então eu e a namorada aceitamos a desventura para o nosso carnaval. logo de cara o que mais me surpreendeu foi a grande incidência de mulheres na casa dos 40. nunca vi tantas concentradas no mesmo lugar. roupas coloridas, papos de signo, de chás, de ervas e de ritmos étnicos que elas não sabiam exatamente da onde ou como eram mas diziam que ser ‘muito bom, muito legal’.

longe de mim querer fazer o papel do cético amargurado, vejam bem, mas todas as senhoras tinham a mente aberta mais genérica do mundo, aquele autoengano de que você é interessado em coisas diferentes só porque fala ‘olha, que delícia!’ quando alguém descreve um retiro espiritual onde as pessoas têm qualquer comportamento incomum (desde ‘sempre cumprimentar com um selinho’ até ‘enfiar o cu num formigueiro’). toda troca de sorrisos e gentilezas era mecânica, como se a pessoa não faria caso não tivesse um buddah dourado te vigiando a cada dez metros.

uma senhora dizia que nunca acordava de mau humor, que sempre sorria muito, amava viver. e se não estivesse de bom humor, ir TRABALHAR OITO HORAS POR DIA EM UM BANCO alegrava ela. algo me diz que alguém plenamente feliz não faz propaganda de sua felicidade por aí e primeiro eu imaginei ela chorando no chuveiro todo dia logo ao chegar em casa. então lembrei do bernie tide, um assassino norteamericano que também era a pessoa mais simpática e sorridente da sua pequena cidade do interior. essa mulher parecia, como ele, ter aquele tipo de felicidade que acaba desencadeando um homicídio aqui e ali. a amizade e camaradagem de todos era muito instantânea, uma intimidade expressa que eu vi apenas naquelas festinhas desesperadas de turma da faculdade e em excursões da cvc.

(queria deixar claro que não tenho nada contra pessoas amáveis, pelo contrário. mas vocês também conseguem diferenciar uma pessoa genuinamente querida daquela gentileza de ocasião, né? aquela pessoa gentil que tem olhinhos miúdos e fundos tipo um vampiro querendo sugar sua juventude).

censo: no dia da visita ao templo eu contabilizei 10 mamães com roupas coloridas xingando seus filhos pequenos por motivos esdrúxulos. uma criança de uns seis anos pediu pra ir ao banheiro durante a cerimônia e sua mãe, com um mantra serigrafado na camiseta, bufou e disse que nunca mais traria ele de novo. não achei muito budista da parte dela.

bons momentos:

comida deliciosa no restaurante ‘café das fadas’ (onde todos os funcionários eram, que coisa, rapazes homossexuais) e um grupo de monges budistas comemorando o ano novo tibetano mesmo estando em dúvida se era o ano 2139 ou 2140 (como assim, mano? pega o número do ano passado e soma 1).

O homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida

Essa é a história de Vinícius Perez, o homem que nunca escolheu uma fila rápida em toda sua vida. Opções não faltaram, mas a triste figura de Vinícius Perez sempre foi na fila disfuncional, aquela com a atendente que sai para o almoço ou a caixa do mercado que grita algum código interno e fica minutos esperando o gerente aparecer com trocados para sua máquina registradora. Às vezes Vinícius, esse infeliz otimista, acredita que sua sorte vai mudar quando, entre dezenas de filas longas, acaba parando em uma com apenas quatro pessoas à sua frente, apenas pare descobrir que uma senhorinha vai pagar em moedas e, ao perceber que não trouxe dinheiro suficiente, vai devolver alguns produtos. Seu destino já estava decidido no dia de seu nascimento: sua mãe, na melhor das intenções, vejam bem, optou pelo parto natural. Uma cesariana, em média, dura 15 minutos. O infanto Vinícius passou 8 horas entre empurrões, pausas e contrações até ser devidamente expelido do corpo de sua genitora.

Nesse exato momento Vinícius Perez está na fila do guichê 12 de uma estação rodoviária as oito e quarenta da manhã. A experiência da fila por si já é traumática, mas o calor do dia somado ao peso da mochila nas suas costas (que aperta a camisa, acentuando o contorno de pequenos mamilos na roupa) tornam tudo ainda mais desagradável para esse jovem cujo sedentarismo corrói seu corpo em uma velocidade meteórica. Por já ter passado um considerável número de primaveras nesse planeta, sempre em filas demoradas, Vinícius desenvolveu alguns jogos para passar o tempo. Vinícius elege A Corrida como a atividade inicial. A Corrida é simples: basta olhar para a fila ao lado e encarar a pessoa que está na mesma posição que você (ou seja, se tem oito pessoas na sua frente, veja a nona pessoa da fila ao seu lado). A partida é intensa e, aparentemente, justa: as duas filas até contém o mesmo número de idosos. Na fila de Vinícius há uma mulher com bebê de colo (ao reparar, Vinícius, esse pessimista que causa nada além de desconforto aos convivas, amaldiçoa a mãe e seu recém nascido com ofensas que eu, particularmente, prefiro não citar). Quatro pessoas da fila d’O Rival já compararam as suas passagens e Vinícius ainda não deu um passo sequer. A mãe e o bebê compram a passagem em menos de um minuto e Vinícius sente uma pontadinha de remorso (que dura pouco e logo é esquecido por Vinícius, esse desprezível). A partida segue competitiva e as pessoas vão comprando suas passagens. Vinícius e O Rival ainda estão empatados. Vinícius olha para seu guichê e vê um jovem de boné. No guichê d’O Rival há a idosa já citadas. Vinícius sorri, pelo menos até perceber que o jovem de boné pegou um celular e, de maneira confusa, começou a descrever todos horários e variações de ônibus para sua mãe. ‘Tem janela?’, o jovem perguntava para a caixa. ‘Não tem, mãe’, respondia para o celular. Quando o adolescente finalmente conclui a compra até O Rival já havia sumido da área de passagens da rodoviária.

Vinícius então iniciou seu segundo passatempo de fila, o (um tanto infantil, ao meu ver) Jogo do Ódio. Embora o nome incite competitividade, o Jogo do Ódio nada mais é que um exercício criativo onde você, bem, odeia seja que for que esteja a sua frente. Você faz deduções preconceituosas sobre a pessoa, julga suas roupas, sua postura lombar, e, principalmente (é o favorito do Vinícius, essa criatura pedante), imagina maneiras de tirar a vida do pobre cidadão que nada fez para você. Vinícius, brincando com um molho de chaves no bolso, imagina como seria cravar a chave do portão (a mais grossa, cilíndrica e serrilhada de todas chaves) no pescoço do homem. Não é necessária toda violência, que fique claro. Tem dias em que Vinícius está bem alimentado e apenas imagina agressões pequenas: um jovial chute na bunda, um peteleco atrás da orelha. Há alvos especiais: quando alguém ouve música no celular, Vinícius delira em um thriller de espionagem que, eventualmente, culmina nele, todo de preto e touca cobrindo o rosto, invadindo a casa da pessoa que andou molestando sua audição com música alta em lugar público. É noite, está escuro e Vinícius caminha até o quarto onde a pessoa dorme. Do lado da cama, ele coloca seu pênis pra fora, penetrando apenas a pontinha da glande dentro da orelha de seu nêmesis por metade de segundo, e, com a mesma rapidez que surgiu, some. Toda fugacidade da agressão é proposital e tem como objetivo deixar para todo sempre a dúvida no inconsciente da vítima (‘Aquilo foi real? De onde vem essa súbita vontade de colocar fones de ouvido?’, costumam pensar, anos depois). Vinícius, esse eterno gurizinho de 13 anos, usa o próprio pênis para o ato pois ainda tem a idade mental de quem acredita que o principal papel do pênis não é sexual nem fisiológico: para ele (esse saco de complexos) sua genitália é um construção bélica feita para desencadear o caos & a danação. Pra te ser sincero, me deixa um tanto triste, esse Vinícius.

Vinícius, essa coisinha narcisista, só acorda do transe quando é abordado por um mendigo. ‘Tô sem nada, cara’, ele diz. O mendigo apenas o encara de volta. ‘Tô te falando, bicho’, ele diz, com a vozinha assustada já fraquejando. O mendigo o olha como quem sabe que ele tem um dinheiro. Vinícius coloca a mão no bolso e fica alisando as duas notas lá se encontram: uma de 50 reais e uma de 2. Ele quer tirar a de dois (Vinícius, esse imbecil, tem medo de tirar muito dinheiro do bolso na frente do mendigo) e estuda cada textura do papel até ter certeza que pegou a nota mais baixa. Olha para a mão e encontra a onça na nota amarelada. Devolve o dinheiro para o bolso em um gesto brusco e vergonhoso, pegando a azulada notinha de 2 reais. Entrega a nota para o mendigo, que vai embora ainda sem dizer nada. O homem atrás dele, um senhor de meia idade que está suando muito dentro de seu traje social, toca no seu ombro e diz ‘Nem na rodoviária o cara pode ter sossego’. Vinícius, como que através de um colapso nervoso, perde a fobia de falar com estranhos e responde com um convidativo ‘Ainda mais nessa filinha que a gente foi parar, né?’. O senhor, empolgado com a possibilidade de criticar, aponta com os olhos para a caixa do guichê, uma jovem negra, e diz ‘Tinha que ser’, passando sutilmente o dedo indicador no braço e pulso, como aqueles jogadores de futebol que são acusados de racismo. Vinícius, esse animal sem dignidade ou coragem, sabe que aquele deveria responder aquele velho racista com palavras muito hostis e até, quem sabe, agressão física. Mas Vinícius é desses que não consegue se impor nunca e o máximo que responde é um baixinho ‘Não sei se é bem assim, não’. Sentindo vergonha da sua inatividade, Vinícius passa seus últimos minutos apenas explorando a aversão que sente por si próprio e o constrangimento crescente que é ser ele mesmo.

Finalmente a caixa o atende. ‘Quero o pra Porto Alegre das nove e meia’. A moça do guichê digita e responde um direto ‘Lotado. Só tem lugar no das quatro da tarde’. Vinícius suspira e compra a passagem, aproveitando a manhã livre para passar no banco e no correio.

A invenção do botão de pressão

A invenção do botão de pressão, popular alternativa ao botão costurado presente em variadas peças do vestuário contemporâneo, ocorreu no ano 1479 por, até aquele momento apenas um camponês, Santiago de Gunderico. Conhecido em Sevilha, cidade espanhola onde nasceu e passou sua breve vida, Santiago de Gunderico muito atraía a atenção da população com seu comportamento boêmio e seus gestos espaçosos. Tais atitudes culminaram que fosse rapidamente apelidado pelos conterrâneos de Santiago Caos e Danação. O fato é que Santiago era dono de uma mente inquieta e, antes mesmo de inventar o botão de pressão, já havia criado uma atração que, apenas séculos depois, se tornou muito popular ao redor do mundo: o striptease. O camponês, entorpecido pelo consumo intenso de vinho (os seus favoritos eram de: romã, amora, amoras-silvestres, pêra, e sidra), tinha o hábito subir no balcão da taberna que frequentava e, em um ato brusco, abrir sua camisa, estourando botões que estavam costurados em suas roupas enquanto rebolava de maneira, segundo relatos, pecaminosa. Santiago, entretanto, era atormentado com o fato de ser um sujeito mirrado com pouca massa muscular. Não por acanhamento com o próprio torso, longe disso, mas por consequência das frequentes vezes em que seus braços “finos a ponto de passar na cabeça de uma agulha” não foram capazes de arrebentar todos botões, que, de tão bem costurados, acabavam o “afogando no embaraço do anticlímax”.

Estou sobre a mesa com a confiança de um carrasco e a leveza de uma guilhotina. Todos olhos me fitam com expectativa. Agarro o colarinho da minha  camisa e, como se me libertasse de um casulo sufocante, puxo cada gola para um lado oposto, arrebentando os dois botões iniciais da minha singela traje superior. Infelizmente, por fracasso próprio, o terceiro botou não arrebentou. Meu antebraço fraquejou. Solto as golas, relaxo os músculos, respiro fundo e tento de novo. Nada. Não consigo arrebentar o botão. Um sentimento de letargia toma conta do meu corpo enquanto abandono o recinto, com apenas um terço do meu peito de fato despido. (…) Confesso que até quanto bem executada a Dança de Despir-se (ainda não fui abençoado com a inspiração para batizar minha provocante invenção) me causa esforço intenso. A euforia do momento é realmente intensa e me faz sentir vivo, mas depois, quando já estou com o torso devidamente nu e todos ao meu redor já voltaram às suas atividades de confraternização, eu desço do meu palco improvisado e, como não sou realeza ou sequer um frade influente, recolho todos os botões para, quando chegar em casa, os costurar novamente à minha camisa. Ficar curvado, com o peito amostra, caçando botões  como um infante que procura besouros no gramado é uma atividade maçante e vergonhosa que me faz querer desistir. Ou, pelo menos, pensar em uma solução.
(Trecho de Diários de Santiago, publicado apenas em 1921).

trewsRetrato do Jovem Santiago de Gunderico
sintetiza seu espírito bonachão e festeiro.

Encarando seus próprios demônios, Santiago, sempre extrovertido e diariamente visto pelas vielas da cidade, se tornou recluso por um ano. Sua única companhia durante esse período foi Tobias, um porco selvagem que certa tarde invadiu seu jardim e nunca mais partiu. Durante esse ano recluso, suas únicas aparições públicas era nas manhãs de quinta-feira, sempre quinta-feira, quando saía de sua casa para jogar um esporte, uma variação de críquete, onde batia em uma bola com um taco e Tobias corria para busca-la. Após os 12 meses de auto-encarceramento, exatamente um ano depois do dia que decidiu se exilar, Santiago de Gunderico saiu de casa e marchou até a taberna. Lá, entre o completo silêncio dos presentes e sem falar uma palavra sequer, subiu sobre o balcão e abriu sua camisa. Nenhum botão voou mas mesmo assim a camisa abriu com facilidade ímpar. Em segundos ele fechou a camisa e repetiu o ato. Os presentes não acreditavam no que via. Ele havia inventado o botão de pressão.

Unindo dois discos de metal que podiam prender ao mesmo tempo qualquer tecido, o botão de pressão era abotoado com bem mais facilidade que o tradicional botão costurado, que exigia um buraco na camisa para encaixar a pequena roda suspensa por fios.

358px-Medieval_pig_slaughterSantiago, com um aspecto ermitão, praticando seu
peculiar esporte ao lado de Tobias.

Infelizmente o ano em que Santiago ficou recluso, alheio à sociedade, também foi o ano em que foi imposta a Inquisição Espanhola. O engenho inexplicável do botão de pressão somado à libido feroz de sua dança erótica causou frenesi em Tomás de Torquemada, inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão, e, em novembro de 1479, Santiago de Gunderico foi executado queimado vivo com acusações de bruxaria e heresia.

484px-DruckknopfOs inquisitores consideraram que o botão, além de maligno por sua
essência, também representava a cópula, com o botão superior
representando o homem e o inferior a mulher.

um pequeno relato sobre infância, rpg e suor

meu único contato com rpg foi no verão de 1998 em jaguarão, a cidade mais feia de todo rio grande do sul. a família da minha vó é de lá e era costume passar o carnaval na casa das tias, com primos amontoados. a população da cidade, que era de uns trinta mil habitantes, triplicava no carnaval, mesmo sendo uma festa humilde (uma coisa maneira eram os mascarados: homens adultos com máscaras do pânico e de monstro travavam um duelo com crianças armadas de pistolas d’água e balões).

enfim, o rpg: era uma tarde de carnaval e meu primo, um alemão gordinho, apareceu com uma revista ‘tormenta’. não era nem gurps ou d&d, era 3d&t, um rpg for dummies criado pelo responsável por um mangá pt-br chamado holy avenger, vejam vocês. está quente e nós éramos três crianças levemente obesas falando de elfos, anões e bardos. lembro de preencher aquela ficha, as bolinhas de “lábia” ou “defesa”, com suor acumulado no buço infantil. o elástico daqueles shorts dos anos 90, com o rosto do fido dido estampado, apertava a cintura do meu primo, desencadeando várias dobrinhas de gordura que, quando esticadas, deixavam marcas vermelhas de assadura na sua barriga. o terceiro jogador era um uruguaiozinho que usava a morte precoce da mãe para apalpar meninas (ele tinha um interruptor escondido perto da cama e ficava apagando a luz, como se fosse assombração do fantasma da mãe. as meninas, assustadas, se aproximavam dele, facilitando que ele apertasse seus peitinhos pouco desenvolvidos). lembro daqueles três corpos pequenos, gordos e suados sentados em círculo no chão da sala de uma tia-avó que não tirava os plásticos dos sofás, com o sol entrando por umas frestas da janela enquanto preparávamos todas as fichas e revisávamos as regras. no fim, tivemos uma discussão sobre quem seria o mestre, acabamos desistindo de jogar e saímos para ir na casa de um quarto amigo, o único conhecido com uma irmã mais velha, a mulher ideal para todos nós.

chegando lá, a irmã estava com uns cremes estranhíssimos na face, várias pintinhas amareladas espalhadas pelo rosto, e a mãe dele, crente, nos obrigou a ir em um culto com ela.

L’esprit de l’escalier

Acho que eu tinha uns 12 anos. Era verão e eu estava passeando com meu pinscher magrelo pelas ruas de Muçum (5 mil habitantes) em uma tarde de domingo. As ruas da cidade já eram desertas nos dias úteis e o sossego dominical fazia Muçum parecer uma cidade fantasma. Estava distraído brincando com meu adorável cãozinho (agora, adulto, posso afirmar que sou um membro do clube dos Homens Heterossexuais Que Adoram Pinscher) até perceber que três rapazes caminhavam em minha direção, todos mais velhos e claramente mais fortes que eu. Um deles olhou para nós e rosnou:

– Não sei quem é mais feio, tu ou o teu cachorro.

L’esprit de l’escalier é uma expressão francesa (eu sou heterossexual mesmo, juro) para quando uma resposta para uma ofensa vem tarde demais e eu, hoje, 10 anos depois, acabo de pensar em uma refutação que seria melhor do que simplesmente voltar cabisbaixo para casa como eu fiz. Eu deveria ter olhado ele nos olhos e falado:

– Engraçado tu achar feio, porque a tua mãe não reclama. Digo, quem come ela é o cachorro, né? Eu nunca ia colocar meu pau naquela buceta imunda.

PS. Se você está sentindo pena do pequeno Vinícius e da cicatriz que esse trauma fez em sua pisque, saiba que o cara que falou isso, poucos anos depois, morreu em um acidente de carro, então: deboa.

Pegadinha

Estava vendo aquele vídeo do CQC onde um dos sujeitos lá faz pegadinhas em uma maratona de madrugada: ele dá cachaça no lugar de água para os corredores, os assusta com umas pessoas fantasiadas de monstros. Um pessoal chiou, disse que era sacanagem brincar com a vida do cara que treinou pra corrida e o camarada do CQC respondeu com aquele discurso: ‘é humor, pegadinha é isso mesmo’. Daí eu pensei que seria muito maneiro fazer um documentário chamado ‘Pegadinha: O Filme’, onde uma equipe acompanha a vida desse apresentador de um programa de pegadinhas e vai pregando peças nele até tornar sua vida um inferno. Todo dia alguma coisa, desde trocar todas fechaduras da sua casa até um taxista suicida ameaçando jogar o carro contra um ônibus na contramão.

Fantasias

Eu tenho pequenas fantasias de momentos de glória, fico encarando o vazio e criando esses cenários onde eu sempre acabo sendo adorado de algum jeito (seja através de uma virtude ou de um talento que eu nem tenho de verdade). Vamos à elas:

1. Eu estou jantando com minha namorada e amigos dela. Um amigo em especial fala alto e incomoda. Esse amigo, posteriormente, decide se declarar para a minha namorada. Eu, superfly e tranquilo, deixo ele fazer a investida (todos reparam como não sou possessivo e me acham um ótimo ser humano). Mesmo assim, amigo, no meu da sua declaração, me empurra e joga água no meu rosto. Eu, molhado (de um jeito atraente), levanto e falo: ‘Que porra é essa? O Diário de Bridget Jones?’. Todos riem enquanto eu dou um soco no rosto do amigo, que cai no chão e toma alguns chutes na barriga.

2. Estou andando na rua, tarde da noite. Vejo o carro caro. Ao lado dele está um rapaz rico, com camisa pólo com brasão de rugby, maltratando um filhote de cachorrinho. Corro até o lugar e jogo um pedregulho pelo parabrisas do carro. Ele se distrai e eu pego o filhotinho no colo mas não consigo fugir: ele bate com uma chave de roda na minha testa, que corta e começa a sangrar muito. Nessa hora aparece uma fotógrafa que registra o momento, eu sujo de sangue (de um jeito muito viril e atraente, como aquela foto do Miles Davis) com um adorável cãozinho no braço. Saio no jornal, sou compartilhado no Facebook e viro o novo rosto do amor aos animais.

3. Eu dando soco em um padre em um velório. As pessoas, naturalmente, me odeiam no primeiro momento mas então eu faço um discurso sobre como ele estava usando a vulnerabilidade dos presentes para criticar outras religiões e empurrar suas ideologias ao invés de prestar as devidas homenagens ao morto e conforto à família. Todos concordam. Ao fim, enterram o defunto enquanto eu toco uma versão de ‘Amazing Grace’ no piano, com o padre ainda desmaiado.

4. Há variações, mas basicamente sou eu levando um tiro por um bebê.